Muitos têm a imagem do Panamá como um centro de compras, mas é muito mais do que isso. Um local em constante transformação com grande importância estratégica e área histórica no bairro Casco Viejo, disputada por gangues rivais. Além do Canal do Panamá, parada obrigatória para quem deseja conhecer um pouco mais sobre a logística do comércio marítimo internacional. O grupo formado pelo Conselho Regional de Administração do Rio Grande do desembarcou no país na última segunda-feira (21/11) para fazer uma extensão do XII Congresso Mundial de Administração, realizado em Cartagena e ampliar os conhecimentos com uma visita técnica ao Canal do Panamá, considerado a 7ª Maravilha do Mundo Moderno. 
 
Construindo a história 
Os primeiros a pisarem em terras panamenhas, mais especificamente na região de istmo, foram os espanhóis, em 1501, quando o navegador Rodrigo de Bastidas chegou no país até então habitado por tribos indígenas. Os índios cunas, guaymis e chocós foram assassinados e dez anos depois iniciou o povoamento do Panamá. A Espanha converteu o país em uma via de cruzamento entre os dois mares – Atlântico e Pacífico – transportando riquezas por meio de barcos. A partir disso, os espanhóis chamaram militantes franceses para iniciar a construção do Canal do Panamá, em 1802, mas os trabalhadores não aguentaram devido às epidemias da época, resultando em uma altíssima taxa de mortalidade. Ainda, em função dessa concentração de riquezas aconteceram diversos ataques de piratas e corsários ingleses, onde milhares de pessoas morriam nas guerras.     
 
Porém, em 1821, o líder político venezuelano, Simón Bolívar declarou, por meio de sua força, a independência espanhola e união à Colômbia, fazendo com que o Panamá se juntasse à Colômbia, Venezuela e Equador. No entanto, os Estados Unidos ajudaram no processo de independência do Panamá, com intenções secundárias em relação ao Canal, já que o então presidente dos Estados Unidos na época, Theodore Roosevelt, acreditava que os americanos podiam terminar o projeto iniciado pelos franceses e que seria um ponto estratégico tanto militar, como econômico. Dessa forma, foi assinado o Tratado Hay-Herran pelos dois países – Colômbia e Estados Unidos, mas o senado colombiano não o ratificou. Foi aí que o país americano apoiou e interviu no processo do movimento separatista do Panamá, com o objetivo de ganhar o controle e seguir a construção do Canal. A meta foi tingida com êxito e o Panamá declarou sua independência em 3 de novembro de 1903, mas a Colômbia só reconheceu a soberania do país, em 1921, somente após os Estados Unidos os compensarem com US$25 milhões e um pedido de desculpas formal do Congresso dos EUA pela intervenção no conflito da Panamá-Colômbia. 
 
 
Uma obra disputada 
A história do Panamá é também a história do Canal do Panamá. Hoje, a construção, que tem 77,1 quilômetros de extensão, é um grande orgulho para o povo panamenho, porém o desenvolvimento do país sempre esteve atrelado à obra e aos interesses de outras nações. Os Estados Unidos, depois de serem rejeitados para dar continuidade ao Canal, apoiaram fortemente a independência do Panamá da Colômbia e enviaram suas tropas militares à região para evitar ataques colombianos. Em 1904, os americanos assumiram o projeto e levaram uma década para concluí-lo, inaugurado oficialmente em 15 de agosto de 1914.
 
Neste período, os panamenhos se viram divididos em duas partes: para entrar na zona onde moravam os engenheiros americanos, na faixa do canal, eles deveriam apresentar passaporte, o que feriu demasiadamente o orgulho do povo panamenho. Ocorreram muitos protestos, alguns com repressão brutal e até mortes. Hoje, a área de bases militares, comprada por um árabe e de responsabilidade do ex-presidente do Panamá, está completamente abandonada, confiscada pelo governo devido a dividas altas de pagamento de impostos. 
 
Os Estados Unidos controlaram a Zona do Canal do Panamá até a assinatura do Tratados Torrijos-Carter, em 1977, que na realidade são dois tratados assinados entre o Panamá e os EUA, garantindo ao Panamá o controle total do Canal. O nome dos tratados são em homenagem ao presidente estado-unidense Jimmy Carter e o líder panamenho Omar Torrijos. Um diz respeito à neutralidade permanente e à operação do Canal do Panamá. Ou seja, os EUA mantêm o direito de defender o canal de qualquer ameaça. E o outro, garantiu que, depois de 2000, o Panamá assumiria o controle total das operações da via. 
 
Atualmente, o Canal do Panamá não tem defesa militar e é de responsabilidade de um Administrador chamado Jorge Luis Quijano. Esse profissional é eleito de quatro em quatro anos em uma convenção coletiva formada por representantes da sociedade que não possuem partidos políticos. A próxima eleição será em setembro de 2019. Além disso, o lucro líquido do Canal é entre 3,4 a 7 milhões de dólares por dia, com a ampliação a expectativa é que esse número aumente, gerando até 10 milhões de dólares diários. Desse valor, o Administrador do canal, repassa de 8 a 10% ao Governo do Panamá
 
A logística do Canal do Panamá 
Uma passagem rápida, segura e de grande estratégica econômica entre os oceanos Atlântico e Pacífico em um dos pontos mais estreitos do istmo do Panamá e do continente americano, permitindo que essas regiões sejam mais integradas à econômica mundial. Esse é o Canal do Panamá, um dos maiores e mais difíceis projetos de engenharia já realizados no mundo, que funciona como um atalho marítimo para reduzir distâncias, tempo e custos de transportes de todo o tipo de bens.
 
O único país que não paga para fazer a travessia é a Colômbia, devido à separação do Panamá e a intromissão dos EUA neste processo. No entanto, o pagamento dos demais é feito via transferência bancária e o piloto que dirige as embarcações deve ser do próprio Canal. 
 
A via opera a partir de três eclusas que servem como elevadores de água para subir as embarcações ao nível do lago Gatún, a 26 metros sobre o mar e após baixar ao nível do mar ao outro lado do istmo. Esse processo é feito em partes, aumenta 8 metros, após 8 metros novamente e depois 10 metros, chegando aos 26 metros. Com a ampliação do Canal, que teve início em 2007, duplicou-se a capacidade da via, já que a demanda era muito alta. 
 
As novas eclusas permitem a passagem de navios maiores e mais pesados, com até 366 metros de comprimento e 13 mil toneladas de capacidade. Enquanto às antigas, permitem a passagem de navios com até 294 metros e 5 mil toneladas. A modernidade faz com que novos tipos de cargas possam ser transportadas via canal, como gás liquefeito de petróleo. Hoje as principais embarcações são as de contêiner, graneleiros, tanques e refrigerados, tendo como os principais clientes os Estados Unidos e China. 
 
Para o Panamá, a obra do Canal, representa sua consolidação na fatia do comércio mundial, que hoje é de 4%. Além da contribuição de três quartos do PIB mundial.  Um pequeno país onde nove dos dez maiores edifícios da américa latina estão na cidade e que teve o maior crescimento de PIB das Américas em 2015, de 6,5%. 
 
A visitação ao Canal do Panamá é uma verdadeira aula presencial de logística internacional, registrada e visualizada in loco por nossos olhos e mentes, a cada passagem de uma embarcação na via Interoceânica, bem como nas exposições criativas de seu museu que, além de tudo, permite navegação simulada em um navio carregado de containers em todo o percurso do Canal.
No mundo atual, a rota pelo Panamá confirma seu valor permanente na cadeia do comércio global e sua conectividade que é potencializada por portos em dois oceanos, um centro de transbordo aéreo, uma estrada de ferro Interoceânica, uma rede de telecomunicações de alta tecnologia e um centro de serviços financeiros e comerciais de qualidade Mundial. Um verdadeiro local em ascensão, que apresenta uma aula de logística, exemplo de desenvolvimento econômico e ainda encanta com seu centro histórico, patrimônio da humanidade, no bairro Casco Viejo.
 
 
 
 
 
 
 
O Canal do Panamá em números:           
 
- Desde sua abertura, mais de um milhão de trânsitos de navios passaram pelo percurso. - Para atravessar de um oceano a outro, os navios pagam em média US$ 100 mil, de acordo com a carga;
 
- O valor máximo pago por uma carga foi de US$ 500 mil. Se fizermos os cálculos, os gastos compensam, pois um barco economiza cerca de US$ 2,3 milhões usando o canal; 
 
- Em média, passam entre 38 e 44 navios diariamente pelo Canal;
 
- Os meses de maior movimentação são outubro, novembro e dezembro; 
 
- A partir da ampliação do canal, já houve uma receita de US$ 2600 milhões, do mês de julho de 2016 até hoje; 
 
- Para a passagem de pequenos veleiros, gasta-se cerca de 5 milhões de galões de água doce. Já na travessia de navios, consome-se  55 milhões de galões; 
 
- A obra de ampliação demorou nove anos e custou US$ 5,7 bilhões; 
 
-  A via ampliada recicla 60 a 65% da água gasta;
 
- Os portões das eclusas antigas pesam 2243 toneladas. Das novas, 4300 toneladas; 
 
- São gastos US$ 700 milhões por ano em manutenção do Canal; 
 
- Oito minutos necessário para fazer um navio mudar de nível, 104 milhões de litros de água são movidos na câmara da eclusa.