Com o objetivo de trazer questionamentos do cenário atual da sociedade globalizada, o XII Congresso Mundial de Administração em Cartagena de Índias trouxe para debate as Políticas de enfrentamentos das alterações climáticas, com a conferencista Dra. Antropóloga Mayanna Lahsen. Os números são desesperadores: a concentração de CO2 estamos muito além, é a concentração maior dos últimos 800 mil anos. 
 
Abrindo a conferência, o presidente do CRA-RS, Adm. Valter Luiz de Lemos exaltou que o tema exige mais que inteligência, exige consciência, educação e Administração social. Neste sentido, a palestrante Mayanna lembrou do estudo The Limits To Growth (Os limites do crescimento), feito em 1972 por um grupo de cientistas que apontava que se a população daquela época seguisse na mesma velocidade do uso de recursos e crescimento da poluição, chegaríamos a um limite nos próximos 100 anos. “Essa previsão foi bastante assertiva. Um estudo feito 40 anos depois publicado no jornal The Guardian comprovou a veracidade da pesquisa e indicou que estamos perto de um colapso”, afirmou. Ela explicou que na época os cientistas foram fortemente atacados, assim como acontece hoje devido ás inúmeras previsões cientificas que temos em relação as mudanças climáticas. “Para onde estamos indo se não mudarmos nossas atitudes? No meio do milênio vamos perceber cada vez mais impactos. Teremos problemas em relação à alimentação, às mudanças climáticas e recursos muito escassos”, disse. 
 
As emissões de gases entre os anos de 1850 e 2011 pertenciam 40% somente aos Estados Unidos e Europa (21% e 18% respectivamente), à Índia correspondia apenas 3%. Hoje, a China lidera com 25%, seguida dos Estados Unidas (18%) e Europa (10%). “Temos opções para reduzir as emissões e limitar as mudanças climáticas. Uma delas é criar uma sociedade mais consciente e sustentável”, analisou, destacando que deve-se preservar os recursos naturais para as gerações futuras. 
 
Em 1997 foi assinado no Framework Convention on Climate Change, o Protocolo de Kyoto, que entrou em vigor apenas em 2008. “Dentro da medida se falava muito em distinção dos países na questão de emissão de gases. Hoje já não se fala mais nisso. O problema do Protocolo é que os maiores emissores acabaram se retirando do grupo e no segundo período de compromisso, entre 2012 e 2020, só estavam os países que ocupam os lugares de menos emissões”, contou, revelando um dado surpreendente: só em 2015, o mundo já emitiu quase 1900 gt equivalente à CO2, sendo que o limite é de 2900 gt. “Com as emissões atuais, transmitiríamos 1000 gt em 30 anos e ultrapassaríamos a temperatura de 2 graus célsius”, alertou. Outra diferença em relação ao Protocolo de Kyoto, é que no COP 21 não tem penalidades para quem não cumprir, sendo um processo voluntário. “Há uma avaliação de 5 em 5 anos, após esse período os compromissos devem ser mais fortes e mais intensos”, realçou. 
 
Mayanna questionou sobre quem irá financiar isso? Como os países mais pobres do mundo vão ter acesso às tecnologias? Ela explicou que foi definido um fundo de para que os países em desenvolvimento tenham acesso às ferramentas necessárias, porém o objetivo é juntar 100 bilhões de dólares até 2020 para ajudar os países em desenvolvimento, mas até agora esse valor é de 10 bilhões de dólares. “É um cenário de incertezas. Não se sabe se realmente os países cumprirão com os compromissos ou irão cair fora. Estamos num processo muito longe da meta”. Ela lamentou o posicionamento de Donald Trump, que já deixou claro que vai tirar os EUA do acordo. “Existirão tecnologias que irão retirar as emissões de CO2 da atmosfera, porém é tudo muito incerto e novo. É muito grave ter isso em um plano, pois é algo que não sabemos se vai dar certo.” 
 
A mídia tem sido considerada a vilã neste sentido, pois não há ampla divulgação do assunto e dos perigos em frente. “Ninguém fala, por exemplo, que é fundamental reduzir o consumo de carne para lidar com as mudanças climáticas. Por volta de 15 e 18% das emissões globais vem do consumo de carne, principalmente do porco. O gado, ainda, é o grande motor do desmatamento e isso não inclui o transporte dos animais”, revelou. A conferencista foi contundente dizendo que este assunto é um tabu, não é divulgado pelas grandes mídias. “Durante todo 2014, achei apenas uma matéria no jornal O Globo falando sobre o assunto, em contrapartida, as pesquisas comprovam isso”, confirmou, levantando os estudos do grupo Observatório do Clima que apontou que 69% das emissões de gases do Brasil estão ligadas a produção de carne e ao relatório do World Resourcers Institute, que indica que se 10 bilhões de consumidores diminuíssem o consumo de carne em 40%, o mundo teria uma área duas vezes maior que o tamanho da Índias para produção de alimentos.
 
Ela diz que ter a previsão e não fazer nada não adianta. “Devemos pensar fora da caixa e agir fora da caixa e isso tem que ser agora. Não podemos encontrar pessoas que pensam igual ao Donald Trump. O Brasil pode se superar muito nesta área. Não vamos deixar acontecer o que aconteceu há 40 anos atrás, que o estudo The Limits To Growth foi confirmado.”