Um estudo de caso que investigou o plano de contingência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) diante de três episódios de crise – incêndio da Boate KISS, surto de Gripe A e greve dos caminhoneiros – será apresentado em um dos principais congressos da área hospitalar, no próximo dia 8 de novembro, em Omã, país da Península Arábica, durante o 43º World Hospital Congress, da International Hospital Federation (IHF).
 
As autoras são as Administradoras Ana Paula Coutinho, Luciane Camilo de Magalhães e Michele Sbaraini Savaris, que atuam no HCPA. A pesquisa teve origem na investigação sobre os desafios do Hospital de Clínicas de Porto Alegre no enfrentamento da crise de abastecimento causada pela greve dos caminhoneiros, em 2018. A análise foi reconhecida no Prêmio Belmiro Siqueira de Administração, entregue pelo CRA-RS, na última semana.
 
Agora, em versão ampliada, a pesquisa será apresentada durante o 43º Congresso Mundial de Hospitais (43º World Hospital Congress) da Federação Internacional de Hospitais (International Hospital Federation). Criado em 1929, quando foi realizado pela primeira vez em Atlantic City, nos EUA, o evento, que ocorre anualmente em todo o mundo, reúne líderes de organizações nacionais e internacionais de hospitais e serviços de saúde para discutir os principais fatores que envolvem políticas, gestão, tendências, soluções financeiras, de gerenciamento e prestação de serviços nacionais e internacionais de instituições de saúde.
 
Na última semana, as três Administradoras receberam R$ 10 mil como reconhecimento pelo trabalho pelo Prêmio Belmiro Siqueira. Instituído pelo CFA em 1988, a premiação tem a finalidade de divulgar e valorizar a produção científica de Administradores, profissionais e estudantes da área. Os agraciados concorreram em âmbito nacional e foram avaliados, no RS, pela Presidente do CRA-RS, Adm. Claudia Abreu, Conselheira Adm., Nadir Becker, além do Conselheiro e Adm., Fernando Milagre.
 
Instituição pública e universitária, ligada ao Ministério da Educação (MEC) e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Hospital de Clínicas, onde as Administradoras atuam, é referência em assistência de alta complexidade, contando com 845 leitos e atendimento em mais de 60 especialidades médicas, além de destacar-se em ensino e pesquisa.
 
Sobre o estudo
 
O trabalho desenvolvido pelas Administradoras Ana Paula Coutinho, Luciane Camilo de Magalhães e Michele Sbaraini Savaris permitiu concluir que as crises vivenciadas como a greve dos caminhoneiros, incêndio da Boate KISS e o surto de Gripe A, para além de oportunizar um olhar mais crítico sobre os pontos a serem melhorados na instituição, oportunizou a revisão e adoção de novas práticas de gerenciamento de risco na instituição.
 
Para tanto, foram analisadas a gestão operacional, gestão da cadeia de suprimentos, gestão de riscos, além da comunicação interna e com a sociedade. As autoras apontam que a gestão eficaz dos riscos contribui para o desenvolvimento sustentável e garante a continuidade dos serviços numa situação inesperada. Os hospitais, de acordo com as autoras, pela natureza de suas atividades, precisam estar preparados para sobreviver a crises emergências e desastres, pois são os locais de atendimento da população afetada em catástrofes.
 
Ainda de acordo com o estudo, as instituições hospitalares precisam manter a cultura de segurança em todos os níveis hierárquicos, a aprendizagem organizacional deve ser contínua e o hospital deve aumentar sua adaptabilidade. Mais que isso, planos de contingência são necessários para diferentes cenários com a realização de simulações periódicas e melhoria constante na comunicação interna e externa, bem como o gerenciamento dos principais riscos.
 
Conforme relatório publicado pelo Escritório das Nações Unidas para a Redução de Desastres (UNISDR) e o Centro de Pesquisas de Epidemiologia em Desastres (Cred), o Brasil é o único das Américas que está na lista dos 10 países com maior número de pessoas afetadas por desastres entre os anos de 1995 a 2015.
 
Greve dos caminhoneiros
 
A greve dos caminhoneiros, em 2018, teve 10 dias duração, sendo o sistema rodoviário o principal meio logístico, uma vez que representa 65% de toda a carga movimentada no país. O principal desafio enfrentado pelo HCPA foi a indisponibilidade de alimentos, combustível e material hospitalar. Como consequência, foram canceladas cirurgias eletivas e consultas com pacientes de outros municípios.
 
Incêndio Boate KISS
 
Ocorrido em janeiro de 2013, em Santa Maria, o incêndio na Boate KISS contabilizou 242 mortes. Além disso, 680 pessoas ficaram com sequelas. Grande parte das vítimas tinha entre 15 e 28 anos. Para o HCPA, que não é uma instituição referência para vítimas de incêndio, o principal problema foi atender um alto contingente de pacientes com diferentes graus de queimaduras e danos nas vias aéreas.
 
Gripe A
 
Em 2009, o HCPA atendeu 9.231 casos com suspeita de influenza A (Gripe A). Ao mesmo tempo, 867 funcionários estavam fora por terem sido contagiados pela doença. Inclusive, um colaborador chegou a falecer. A instituição teve que expandir o serviço sem comprometer a unidade de emergência de rotina. Para tanto, foram estabelecidas parcerias com a Secretaria Municipal da Saúde de Porto Alegre, Exército e Aeronáutica, que forneceram espaço para atendimento na saúde básica com tendas de atendimento, como um hospital de campanha.