NEUTRALIZAÇÃO DE CARBONO: Um instrumento para mitigar os problemas gerados pelas Mudanças Climáticas

03/01/2013

Uma sociedade só se transforma se tiver capacidade para improvisar, inovar, enfrentar seus problemas da maneira mais prática possível, mas numa perspectiva racional.
(Celso Furtado)

O aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera , segundo grande número de estudiosos do assunto, está diretamente ligado ao processo do aquecimento global. Esta concentração se faz através de emissão inúmeros gases, destacando-s entre eles a emissão do CO2 (dióxido de carbono) proveniente, principalmente, da queima de combustíveis fósseis tais como petróleo, carvão, gás natural e do desmatamento e queimada das florestas.

Na realidade o dióxido de carbono é apenas um dos gases de efeito estufa. Temos também o metano que é vinte e uma vezes mais forte que o CO2, o óxido nitroso (N2O), o os perfluocarbonoss (PFCs), os Hidrofluorcarbonos (HFCs) e o Hexafluoreto de Enxofre (SF6). Contudo é o dióxido de carbono que vem sendo o mais preocupante no momento presente.

O nível atual de emissão de gás carbônico na atmosfera é o mais alto dos últimos 420 mil anos. Os oito anos mais quentes da História ocorreram na última década. Os Gases do Efeito Estufa -GEE - Dióxido de carbono - CO2 (produzido pela respiração vegetal e animal), o metano (produzido pela decomposição de qualquer material orgânico, desde frutas e verduras até árvores e os próprios corpos humanos) e o óxido nitroso (produzido pelos mares e florestas), entre outros, são considerados os grandes responsáveis pelas mudanças climáticas em nosso planeta, em especial pelo aquecimento global.

Estes gases, denominados de Gases de Efeito Estufa (GEE), além de ser um dos causadores das mudanças climáticas em nosso planeta, especialmente pelo aquecimento global, tem como conseqüências o aumento da quantidade e força de tempestades, provocando mudança das correntes marítimas, degelo e elevação do nível dos oceanos.

Reduzir a emissão de GEE é hoje um fator imperativo para a sobrevivência humana na Terra e este tema foi motivo de um tratado internacional que entrou em vigor em fevereiro de 2005, também conhecido como "Protocolo de Quioto". A partir de dezembro de 2009, iniciando por Copenhague na Dinamarca, líderes mundiais tem se encontrado em diversos países anualmente para discutirem as alternativas para a continuação deste tão controvertido e importante tratado inicial.

Embora considerado um processo natural, a emissão destes gases, tem recebido um reforço inesperado resultado das atividades humanas. Este processo que começou com a revolução industrial, através da extensa queima de florestas e de combustíveis fósseis, associada a produção de elementos estranhos à natureza, como os clorofluorcarbonos (CFCs), entre outros poluentes, tem sido responsável por vários desastres ocorridos nos últimos anos. A compensação deste volume grandioso de emissões tem sido feita por árvores, plantas e plânctons que procuram absorver cada vez maior volume de CO2. Contudo, o ritmo crescente, intenso e acelerado das intervenções humanas, tem desequilibrado os ciclos naturais, não conseguindo impedir mudanças de alto impacto, tais como temperaturas extremas, tempestades e derretimento de calotas polares.

Segundo um estudo da Rede WWF (1), o caminho a seguir, de acordo com o relatório, é a ação simultânea de redução das emissões de gases de efeito estufa em todos os setores, com as medidas de mercado apoiadas por várias políticas como estabelecimento de padrões de eficiência energética, atribuição de tarifas diferenciadas para energias renováveis e o fim dos subsídios para a utilização de combustíveis fósseis.
Voltando a questão do CO2, objeto primeiro deste artigo, a Rede-Clima, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) constatou que cada brasileiro é responsável pela emissão de 10 toneladas de gás carbônico (CO2) por ano, em média. Este número é duas vezes maior do que a média mundial.

Diante deste cenário bastante sombrio é necessário que se inicie um processo de redução da concentração de dióxido de carbono na atmosfera do planeta. Inúmeros instrumentos já foram criados para que se reduza a emissão, entretanto, esta redução da emissão deste e de outros gases de efeito estuda, não tem sido suficiente. Pensando nisso algumas organizações estão começando a iniciar um processo denominado neutralização de carbono.

Em que consiste esta neutralização?  Na realidade este processo procura neutralizar as emissões geradas pelos seres humanos ou em outras palavras realizar uma compensação total ou parcial das emissões de dióxido de carbono feitas nos processos industriais, atividades corporativas, eventos e atividades humanas em geral. Estas ações podem ser ligadas direta ou indiretamente a produtos ou serviços que a organização oferece ao mercado, a processos ou ações próprias ou terceirizadas. Também é possível a neutralização das emissões de carbono de viagens ou locomoção de dirigentes e funcionários, canais de distribuição, atividades de comunicação, promoção e eventos, próprios ou patrocinados.
Algumas Empresas  a nível nacional como a Natura, Ipiranga, Nutril, Rhodia, Alcoa , Faber Castel e Camargo Corrêa já fazem suas neutralizações. No Rio Grande do Sul já foram aplicados processos de neutralização em aproximadamente 40 empresas, destacando-se entre elas as seguintes:   CERTEL ENERGIA e Cooperativa Languiru de Teutônia, Box Print em Campo Bom, Galvanotek de Carlos Barbosa,Ughini Empreendimentos , Canal Rural e TNT Mercúrio  em Porto Alegre, Comercial OTM em Montenegro.

Segundo Simone Oliveira Zahran, diretora no Brasil do Carbon Disclosure Project (2) “ na Grão Bretanha,  o inventário das emissões de carbono  já é tão importante para a efetivação de um negócio quanto o valor cobrado pela Empresa”.
 
Em outras palavras, pode-se constatar que os compradores estão avaliando, cada vez mais, quais os impactos ambientais que  uma empresa esta  causando  durante seu processo de produção e se ela tem uma postura responsável de redução e compensação dos mesmos

Apenas como exemplo, gostaria de citar que os fornecedores de transporte para a maior rede de varejo mundial -  Wal-mart,  (3) já perceberam oportunidades para reduzir suas emissões e foram os primeiros a fazê-lo. Com isso, já estão abarcando uma fatia maior de mercado de forma pioneira.•.

Como se realiza esta neutralização? Na natureza a retirada do dióxido de carbono da atmosfera acontece naturalmente através do processo da fotossíntese, no qual as plantas clorofiladas absorvem o CO2 para sintetizar moléculas de carboidratos. Uma parte dos carboidratos produzidos é utilizada como energia no metabolismo da planta e a outra é destinada à produção da biomassa: raízes, tronco, galhos e folhas.

A capacidade de absorção de dióxido de carbono por uma planta depende de vários fatores bióticos e abióticos, tais como: temperatura ambiente; luminosidade; precipitação e distribuição pluviométrica; fertilidade, textura e porosidade do solo; e do potencial de crescimento da espécie. Existem espécies que podem atingir grande porte e, conseqüentemente, fixar um considerável volume de dióxido de carbono, enquanto outras são de pequeno porte, cujo estoque de CO2 é relativamente menor.

Como se processo a neutralização? Uma das formas de “neutralizar” as emissões de dióxido de carbono é através do plantio de árvores nativas. Estas árvores fixarão o CO2 e através do processo de fotossíntese liberarão para nós humanos o oxigênio tão indispensável para nossa sobrevivência.

Mesmo projetos comerciais, efetuando o plantio de árvores industriais não podem ser baseados em monoculturas. Fazer o reflorestamento, não significa necessariamente, a recuperação da área, contudo ter um plantio programado pode ser um apoio para o processo de neutralização. A proposta de plantio de árvores nativas da região poderá propiciar também a recuperação de áreas degradadas auxiliando na recuperação das reservas hídricas do entorno.

Contudo esta neutralização não ocorre apenas através do plantio de árvores nativas. Pode ser considerada uma neutralização a recuperação de uma área degradada, a recuperação de matas ciliares, o aproveitamento de aterros sanitários. Todos estes processos servem para estabelecer sistemáticas de captação de carbono gerado pelas atividades humanas

O processo todo começa com a conscientização de uma Organização Pública ou Privada a participar do processo de neutralização, permitindo o acesso aos seus dados de consumo de energia, gastos com combustível fóssil e geração de resíduos para a partir desta informação iniciar-se a identificação do volume de gases gerados.  

Os serviços a serem prestado por uma organização prestadora deste tipo de serviço: são o diagnóstico da geração de CO2 e a definição da quantidade de árvores a serem plantadas bem como o local de seu plantio. Este local deve ser localizado em uma área de proteção ambiental (APA), em áreas degradadas ou em recuperação de matas ciliares.

Toda e qualquer organização que queira participar deste processo precisa ter uma concepção de responsabilidade socioambiental muito diferenciada. Ela precisa reconhecer a necessidade de reduzir suas emissões. o que pode ser conseguido utilizando-se  um instrumento ddnominado ¨ inventário de geração de gás carbônico ¨. Este inventário serve para identificar o volume de CO2 gerado em um ano para efeitos de neutralização. Pesquisas realizadas por estudiosos do assunto definiram que para cada tonelada de CO2 gerado será necessário o plantio de, no mínimo, cinco árvores.  

(1) Clima: Relatório estabelece prazos para mudança - http://www.wwf.org.br/?22380/Clima-Relatrio-estabelece-prazos-para-mudança

(2) Carbon Disclosure Project (CDP) – visita ao site https://www.cdproject.net/  em 18/2/2010

(3) Instituto Ethos  – site visitado em 18/2/2010 - http://www.envolverde.com.br


 

  • NEUTRALIZAÇÃO DE CARBONO: Um instrumento para mitigar os problemas gerados pelas Mudanças Climáticas

    Por Volnei Alves Corrêa
    Economista pela Universidade de Cruz Alta; Administrador pela UFRGS; Mestre em Administração pela Universidade de Syracuse, NY, USA; Mestre em Auditoria e Gestão Ambiental pela Universidad de Leon, Madri, Espanha; Professor Universitário; Consultor Organizacional; Ecologista; Conselheiro e Presidente da Câmara de Ensino do CRA-RS